Uma vasta pesquisa eu tive que fazer para certificar-me se, de fato, a presença dos destilados no cotidiano social das mulheres é um fato recente, resultado de suas lutas pela emancipação social e politica, ou se, em algum momento da história que acompanha estas bebidas, denominadas tradicionalmente “espirituosas”, a mulher tenha tido uma presença destacada, encontramos algumas referências sobre essa relação em nossa literatura e fizemos um compêndio do que pensamos relevante para o entendimento dessa relação.

Posso destacar algumas preciosidades que encontrei nessa minha procura pela presença dos destilados nas vida das mulheres. Frida Khalo, não só apreciava o famoso destilado mexicano, feito de agave, a tequila, como acabou por ser garota propagando desta bebida, uma das que mais se aprecia no mundo. Aqui no Brasil, nossa Tarsila do Amaral, um pouco mais recatada, mas não menos artista e tão emancipada quanto, não escondia seu apreço pela cachaça, feita de cana-de-açúcar, bebida símbolo de brasilidade na semana de arte moderna de 22, da qual participou de maneria marcante. Alguém escreveu que ela fazia do nosso destilado o presente preferido para alegrar seus amigos da Europa, enganava os funcionários da alfândega dizendo que era “álcool para passar na pele”.

Alguns estudos apontam, tendo por base, principalmente a arqueologia, que a primeira poção alcoólica foi preparada na China, por volta do ano 8000 a.C. A análise de jarros encontrados em Jiahu, no norte do país, mostrou que eles continham um drinque feito de arroz, mel, uvas e um tipo de cereja, uma bebida fermentada. Uma experiencia revelou que essa bebida “Fica entre a cerveja e o vinho”, segundo o arqueólogo e químico Patrick McGovern.

Outras pesquisas apontam que a civilização dos sumérios (na confluência dos rios Tigre e Eufrates, atual Iraque) aperfeiçoou a fórmula e criou diversos tipos de bebida alcoólica – a maioria delas feita da fermentação de trigo e cevada. Estava criada a cerveja. Por volta do ano 1000 a.C., o álcool já era consumido por todas as civilizações, da África à Ásia.

As primeiras bebidas foram as fermentadas e não as destiladas, como alguns imaginam, até porque era mais simples de serem obtidas, pois bastava uma fermentação controlada, a cerveja dos cereais, o vinho da uva e o cauim dos nossos índios, da mandioca, apreciado muitos antes de Cabral aqui aportar. Os destilados só apareceram, provavelmente, tempos depois, como resultado do aquecimento de algumas das bebidas fermentadas já em uso, por mera casualidade ou até mesmo por iniciativa de algum alquimista à procura de um elixir da vida eterna.

A primeira notícia dos destilados estão nos registros gregos antes de cristo. Eles detinham o processo de obtenção da ácqua ardens. A Água que pega fogo – água ardente ou Al Kuhu. A aguardente então vai da Europa para o Oriente Médio pela força da expansão do Império Romano. São os árabes que descobrem os equipamentos para a destilação, semelhantes aos que conhecemos hoje e que mais tarde chegam a Portugal e ao Brasil colonial. Mas voltemos às mulheres.

A Relação das mulheres com a bebida passa a ser mais evidente no inicio da revolução industrial, quando da saída das mulheres como pessoas que tinha hábitos mais caseiros para ser um ser social mais efetivo. O marxismo e as novas idéias que surgiram dessa nova realidade iriam desembocar na emancipação da mulher e no maio de 68.

A Revolução Industrial mudou completamente a fabricação de bebidas: elas ficaram mais baratas e passaram a ser produzidas (e consumidas) em enorme quantidade. Em 1830, cada americano bebia o equivalente a 10 litros de álcool puro por ano, nível superior ao de hoje (8,5 litros). Foi aí que o alcoolismo, até então apenas uma inconveniência, passou a ser visto como doença séria – e surgiram as primeiras campanhas e associações contra a bebida, que rapidamente conquistaram mais de 500 mil adeptos nos EUA.

No início do século 20, os impostos sobre bebidas alcoólicas eram responsáveis por mais de 50% da arrecadação do governo dos EUA. Mesmo assim o país decidiu instituir, em janeiro de 1920, a lei seca – e as pessoas consumiam sua bebida de forma clandestina. Isso aumentou a criminalidade e fortaleceu as máfias, mas, por incrível que pareça, teve uma consequência positiva: consolidou a igualdade de direitos entre os sexos e mostrou a força dos movimentos feministas. “Durante a lei seca, a presença de mulheres nos bares deixou de ser um tabu”, conta Iain Gately.

Elas se mobilizaram para legalizar a prática: em 1932, mais de 1 milhão de americanas já tinham se associado à Women’s Organization for National Proibition Reform (algo como “Liga das Mulheres Contra a Lei Seca”). Adivinhe só o que aconteceu: no ano seguinte, a lei seca foi revogada.

Reza a lenda que mulher não tem resistência para bebidas fortes. Para esse ser delicado e frágil, o mais indicado e glamouroso seria uma taça de champanhe ou um martíni, no máximo uma caipirinha. Lendas como estas, não deixam de carregar um certo machismo, que fazem sombra sobre a participação da mulher no mundo das bebidas fortes e sob esse prisma, pesquisa nenhuma vai encontrar nada sobre a mulher e as bebidas, que dirá das que pegam fogo ou eau de vie.

Melhor responder a pergunta título, como e quando a mulher toma cachaça, observando e avaliando o que tenho presenciado nos bares e casas noturnas por onde passo ou mesmo em conversas com amigas que nem mesmo sabem o que não é ser uma mulher emancipada, porque já nasceram assim e a maioria delas carregam um pouco de Frida Khalo, Tarsila do Amaral, Simone de Beauvoir e Pagu, todas heroínas da emancipação da mulher.

Quanto a cachaça, em seu início, era um sub produto fermentado e não da categoria dos destilados que requerem aquecimento para que sejam fracionados e separados da base fermentada, mesmo sabendo que a substância principal da bebida, seja ela destilada ou fermentada é a mesma, o álcool etílico. Em termo gerais, o que diferencia as bebidas fermentadas das destiladas é o teor alcoólico. As fermentadas dificilmente passam de 15 °GL e as destiladas podem ultrapassar os 60 °GL. Em um primeiro momento a cachaça era uma bebida fermentada e é por isso mesmo que tem o nome de vinho a garapa fermentada a ser destilada em cachaça ou aguardente.

Portugal já detinha conhecimento naqueles primórdios, primeira metade do século XVI, do processo de destilação, uma herança do domino mouro da península ibérica, pois já fabricavam um destilado a partir do vinho denominado de bagaceira. Muito rapidamente esta tecnologia de destilação da bagaceira foi incorporada aos engenhos do Brasil e assim deu-se inicio à destilação da garapa fermentada, “vinho”, e a produção da cachaça em volume foi inciada: “A revelação gostosa e catastrófica para negros africanos e amerabas brasileiros. Dissolvente dinástico, dispersador étnico, perturbador cultural”, escreveu o folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu livro: O Prelúdio da Cachaça.

Estes parágrafos anteriores, na verdade, estão aqui porque minha busca pelo papel da mulher na história dos destilados e mesmo das bebidas fermentadas mostra que de fato não há registros expressivos, mas ninguém me convence que nos impérios pujantes e com tantas mulheres fortes como o romano, otomano, egípcio e mesmo o grego a mulher já não tinha sido iniciada nas bebidas alcoólicas.

Antes de prosseguir queria aqui mostrar uma preciosidade do que encontrei sobre a mulher e sua classificação quanto sua bebida preferida ou a que bebe. Relutei em relatar um resumo aqui dessa curiosidade, mas creio valer a pena porque é um texto divertido, embora tenha uma pegada rotuladora, o que não é muito bom, mas vamos e frente:

Caipirinha – Preciosidade brasileiríssima originariamente de São Paulo, Limão+açúcar+cachaça. Bebida quase forte, refrescante e doce, mas alegre. A mulher que prefere essa bebida tem simpatia pelos homens decididos e diretos na conquista, mas que sejam bem humorados e discretos. Esta adora o bar com música ao vivo, mas socializa muito mais observando que movimentando pelo ambiente.

CachaçaA apreciadora de uma ou umas doses é decidida e ao enfrentar doses é porque está disposta a uma noitada mais alegre ou um ombro para desabafar as mágoas que pode acabar em uma linda choradeira. Mas a mulher de uma ou no máximo duas doses busca simplesmente degustar e apreciar o brasileiríssimo destilado e deixa claro ao pedir uma dose que sabe o que quer, tem arte, raiz e paixão como Frida Khalo, sabe até mesmo a influência desta ou daquela madeira no sabor e cheiro da cachaça de alambique envelhecida e claro, ela, e somente ela, é quem decidirá quem será o sortudo da noite e, com certeza, que o pretendente saiba conjugar o verbo amar em todos o modos e tempos.


Cerveja – Não importa se cerveja artesanal ou tradicional a apreciadora destes fermentados é sempre de muitas amizades, liberal e extrovertida, mas não aprova intrometidos, sem aviso prévio, na sua mesa repleta de cúmplices, seja na bebida ou nos relacionismos. Se ela percebe estar sendo paquerada vai dar um jeito de ir ao banheiro, ou falar com uma amiga de uma outra mesa, vai facilitar uma troca de telefones e quem sabe um convite para seu pretendente compor a mesa tão divertida, tudo será mais fácil se o escolhido amar cervejas.

Whisky – Um destilado de tradição e imponência, não importa de qual cereal originou. É um destilado escocês do fim do século XV. A mulher que faz do whisky sua primeira bebida sabe disso tudo e muito mais, além de ser decidia, forte e requintada. Sabe que o Whisky até pode ser o melhor amigo do homem como diz o poeta, mas firmemente ela não espera isso da bebida, pois só quer ter um bom papo com alguém, se e somente se esse alguém sabe um pouco mais do que beber, e do que gosta e não duvida que Platão existiu.


Vodka – A rainha dos drinks. Este destilado pode ser produzido a partir de vários cereais, sendo os mais comuns, cevada, milho, trigo e centeio. Se escolhido naquela noite pela mulher, será uma noite para ser lembrada ou esquecida para sempre. A elegância e a comunicação marcam a personalidade dessa mulher que escolhe a vodka como sua bebida do dia ou do dia a dia, mesmo quando resolve ir um pouco além de sua dose costumeira, claro que às vezes dão barraco, mas e daí! são donas do seu nariz e super resolvidas. Homens, de preferência os de muita paciência e charme e que saibam pronunciar Orloff, Smirnoff e claro absolut.

Vinho – É provavelmente a bebida fermentada mais antiga do mundo que se tem notícia. carrega muita tradição e história e quando escolhida pela mulher é porque ela se sente requintada, com classe e ama papos-cabeça ou naquele dia quer isso. Prefere os rapazes misteriosos e jogadores na conquista, que com certeza não será conquista fácil, em especial se não tiverem uma vocação para sommelier.


Que a cachaça ainda não saiu completamente da marginalidade, mesmo depois de considerada a bebida da liberdade e da independência, não é difícil de constatar, basta observar o quão pejorativa é ainda a denominação “cachaceiro” no próprio dicionário, por exemplo o dicionário Michaelis, “um adjetivo e substantivo masculino, que ou quem costuma beber cachaça ou outra bebida alcoólica em grandes quantidades ou imoderadamente; beberrão”, enquanto deveria ser “um adjetivo, substantivo masculino e feminino, que ou quem produz, aprecia, degusta, estuda, pesquisa a cachaça”.Depois de muita leitura não fica difícil concluir que o que falta de fato para a cachaça deixar de vez a marginalidade, como já acontece em diversos extratos da sociedade contemporânea, é ser ampliado ainda mais a participação da mulher nos domínios da cachaça, não apenas como fabricantes, como já acontece desde os primórdios da bebida, mas como apreciadoras. E não é difícil perceber que, embora muitos dos homens já desenvolveram sensibilidade para deliciar uma boa cachaça de alambique, as mulheres, de um jeito inato, com sua peculiar delicadeza e sentidos aguçados, já estão disputando e com vantagem a primazia de quem melhor identifica e degusta uma boa cachaça.

Importante notar que a relação das mulheres com a cachaça nas camadas mais populares da sociedade é mais antiga e mais difundida, nas camadas mais abonadas da sociedade, o consumo de cachaça por parte da mulher tem aumentado na medida em que essa bebida tem quebrado os tabus sobre seu consumo, deixando de ser uma bebida marginal, sinônimo de decadência econômica e da decadência do Espírito para se tornar uma bebida chique, apurada e nobre. Vale salientar, nesse ponto, o Trabalho feito por Aline Bortoletto que demonstra a nobreza desse destilado quando comparado com outros destilados tidos como mais nobres, como o Whisky.
Essas novas consumidoras de cachaça não bebem de uma talagada como fazem boa parte dos homens ou mulheres não iniciados nas boas maneiras de apreciar uma cachaça, mas sentindo cada gota do precioso líquido multi sabores escorrer pela sua delicada garganta. Com charme e estilo, a mulher então quebra e vem quebrando assim mais um tabu e começa a explorar os sabores e texturas da bebida que, até bem pouco tempo, era considerada uma exclusividade dos homens. Estão tomando conta das casas de drinques e em alguns locais até já são maioria.


Não podemos esquecer que hoje também é cada vez mais comum encontros na casa de um amigo ou amiga, que se bem informado(a), já coloca na lista de compras um bom destilado, de preferência uma cachaça envelhecida em uma ou mais madeiras, como Amburana, Jequitibá, Castanheira e outras, preferência certa das convidadas mais exigentes que, inclusive, já sabem que o teor alcoólico importa, mas muito mais importante é o envelhentamento que amacia a bebida, agrega e pronuncia os sabores e aromas. Tomarei aqui a liberdade de citar e homenagear algumas mulheres que conheci no mundo da cachaça e outras que encontrei nas noticiários e revistas: Deusa Rodrigues da D&R Alambique, Valdirene Neves da VN consultória de bebidas, Glaucia Pavanello da Silva arquiteta, Gabriela Lanna da cachaça Tiara, Liala Coelho atriz e estilista, Katia Espirito Santo da Cachaça Da Quinta, Maria Izabel Gibrail Costa da cachaça Maria Izabel, Viviane Bassi da cachaça Bassi, Elk Soares da cachaça Sanhaçu, Cris Amin da Cachaça Tiê, Dra. Aline Bortoletto da USP, Dra. Amazile Biagioni Maia do LABM do segmento de cachaça, Mariana Jorge designer, Isadora Bello Fornari cachacière, Carolina Correia Bastos do Bar e Restaurante Jiquitaia, Bia Goll e Elzinha Nunes chefs, Jessica Sanches, Talita Simões, Adriana Pino bartenders. Ana Marta Guimarães da Cachaça Mineiriana, Elizete da Cachaça Thimotina, Vanessa da Cachaça Néctar do Cerrado, Lélida da Cachaça Melicana, Natália da Cachaça Cachoeira do Carmo.

Cachaça é coisa de mulher… empreendedora!

Respeito e admiração por todas!

Empório Cachaça Canela-de-ema


Empório Cachaça Canela-de-ema

Loja virtual, e-commerce, da empresa Agronegócios Fazenda Lagoa Seca do Brasil LTDA que comercializa, no atacado e varejo, cachaça artesanal, orgânica e produtos afins. Todos os produtos são devidamente escolhidos com base nos melhores resultados dos testes de qualidade conforme critérios do MAPA.

Olá!

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