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A Saga da Fazenda Lagoa Seca: Terra, Família e Cachaça

A Fazenda Lagoa Seca, onde hoje funciona o alambique da Cachaça Canela-de-ema, não é só um pedaço de terra — é o coração pulsante da nossa história. Localizada na região conhecida como Serrinha, às margens do rio Paranaíba e da BR-452, no Km 183, a fazenda fica a apenas 1 km da BR, em Itumbiara, Goiás. É lá que está o endereço físico da empresa Agronegócios Fazenda Lagoa Seca do Brasil LTDA, do e-commerce Empório Cachaça Canela-de-ema e do alambique que já produz cachaça desde 2020.

Sede da fazenda Lagoa Seca e área onde foi construído em 2019 o alambique Cachaça Canela-de-Ema.

Mas o nome “Fazenda Lagoa Seca” não pertence a uma só terra. Na verdade, ele batiza duas fazendas da nossa família. A mais antiga veio dos nossos bisavós paternos, Joaquim Felipe Oliveira de Faria e Mariana de Faria. Depois passou para os nossos avós Firmiano José de Faria e Cândida Vieira Borges, e hoje está no nome do nosso tio Antônio Borges de Faria (já falecido) e da tia Vanda Maria de Faria.

A segunda fazenda, colada ao norte da primeira, foi adquirida depois por nossos pais, João Borges de Faria e Raimunda Luiza de Faria, filha dos nossos avós maternos Ananias Cândido Vieira e Maria Luiza de Faria — a saudosa vó Quinha. Hoje essa terra faz parte do espólio da família e é onde está instalado desde 2019 o alambique da nossa empresa.

Nossos bisavós paternos tiveram outros filhos: José Felipe Mariano, Messias Felipe de Faria, Francisca Luiza de Faria e Maria Luiza de Faria — a vó Quinha. Isso explica por que nossos pais são primos de primeiro grau. Os filhos de João e Raimunda? Uma turma boa: Ozória, Firmiano, Haidée, Maria, Hilda, Meire, Adão (eu!), Roberto, Rubens e Denise.

O nome “Lagoa Seca” vem de uma lagoa com esse nome que fica perto do rio Paranaíba, uns 20 km das fazendas. Ela está no leito do Córrego Grande, formado por dois riachos: o Geromoa, que passa pela fazenda mais antiga, e o Capim, que nasce na fazenda mais nova, com seis nascentes dentro dela. E não é só a nossa que tem esse nome — tem várias “Lagoa Seca” por ali.

A história tem início em 1899, quando Joaquim e Mariana chegaram ao sul de Goiás. Naquele período, Itumbiara ainda era o distrito de Santa Rita do Paranaíba, pertencente ao município de Morrinhos. Em 1909, o distrito foi elevado à categoria de vila e desmembrado de Morrinhos. Em 1915, alcançou o status de cidade e, somente em 1943, com a reforma administrativa do estado de Goiás, passou a se chamar Itumbiara.

O nome “Itumbiara”, que em tupi-guarani significa “Caminho da Cachoeira”, foi sugerido pelo engenheiro Inácio Pais Leme, responsável por auxiliar na abertura da estrada que ligava Uberaba ao interior de Goiás na década de 1820.

Mas os nossos bisavós não vieram por essa estrada. Eles atravessaram o rio Paranaíba por onde hoje é Cachoeira Dourada, provavelmente de balsa ou canoa. De lá até a fazenda são uns 25 km, e da fazenda até o centro de Itumbiara, só 9 km.

Nosso avô Firmiano contava que vieram todos em dois carros de bois, saindo de Piumhi e Formiga, no sul de Minas. Uma viagem de mais de mil quilômetros! Nos carros estavam ele, com seis anos, os pais, os irmãos e talvez alguns outros parentes. Uma verdadeira saga familiar.

Depois de cruzar o Paranaíba, surgiu uma dúvida: seguir para o leste, rumo a Itumbiara, como queria o bisavô Joaquim, ou ir para o oeste, em direção a Jataí, onde a bisavó Mariana tinha parentes? A decisão, segundo Firmino, o irmão e não o avô, foi tomada pelos bois de guia. Joaquim, indeciso, deixou o destino nas patas dos animais. E não é que os bois escolheram a curva à direita, rumo à Serrinha?

Nosso irmão Rubens ouviu do tio Antônio que, ao saírem da balsa — não a atual de Cachoeira Dourada, mas uma mais abaixo — os bois tomaram o rumo de Porto Gouveinha, já no município de Inaciolândia. Esse desvio inesperado reforçou a crença de muitos: o destino já estava traçado.

Porto Gouveinha localizado hoje no município de Inaciolândia depois do surgimento da represa no canal de São Simão.

Nossa irmã Meire confirmou com documentos que a chegada foi mesmo em 1899. Firmiano José Felipe nasceu em 1893 e chegou à Serrinha com seis anos. Os registros não deixam dúvidas. Ver links abaixo.

Firmiano, nosso irmão, também garante que a travessia foi feita de forma precária, com canoas — como nos tempos dos bandeirantes. Imaginar nossos antepassados enfrentando o rio com coragem e esperança é como ver um filme épico da vida real.

Piumhi, cidade natal do bisavô Joaquim, nasceu às margens do rio que lhe dá nome — “rio de peixe” em tupi. A cidade surgiu da mineração de ouro no século XVIII. Com a exaustão das minas, a alternativa era seguir para Goiás. Assim adentraram pela  “Picada de Goiás’ — uma estrada real que ligava Minas ao interior do país.

Foi por essa estrada, ou por alguma de suas derivações, que nossos antepassados vieram. Mas não buscavam ouro ou diamantes — queriam terra. Terra para plantar, criar gado, construir um futuro.

Se nosso avô nasceu no ano de 1893 no dia 22 de Setembro, título Eleitor Vô Firmiano, registro de casamento do avó materno Ananias e avó paterno FrirmianoCaderno de apontamentos do Vô Firmiano,  e segundo ele próprio chegou na Serrinha com seis anos, conclui se que o ano de 1899 é de fato o ano da chegada na Fazenda Lagoa Seca.

Firmiano teria completado 21 anos em setembro de 1914, então em julho de 1915 ele já estava com quase 22. Portanto, o registro de casamento que afirma que ele tinha 20 anos está incorreto — ou foi um erro de transcrição, ou talvez ele mesmo tenha informado a idade errada por algum motivo (como falta de documentos ou confusão comum na época).

A Picada de Goiás – Estrada oficial autorizada em 08 de Maio de 1736 pelo Conde de Bobadela.

O motivo exato da mudança para tão longe ainda é um mistério. Mas tudo indica que vieram mesmo em busca de produção agrícola. No fim do século XIX, o ouro já era escasso em Piumhi, e o diamante também não dava mais sustento no médio e alto Paranaíba. A carpintaria, profissão do nosso avô Firmiano — que dominava a escrita e a engenharia de moendas e engrenagens — talvez tenha sido outro motivo. Ele provavelmente herdou esse talento do bisavô Joaquim, e veio atrás de madeira, novos clientes e menos concorrência.

Nos primeiros anos em Itumbiara, além da carpintaria, plantaram café. Segundo nosso irmão Firmiano, as sementes vieram de Piumhi, onde o café já era uma cultura forte. E esse café foi vendido por bom preço na cidade, especialmente para os comerciantes da tradicional família Barra em Itumbiara.

A cana-de-açúcar, que hoje domina o sul goiano, só virou protagonista com a chegada das grandes usinas de bioetanol e açúcar, vindas de São Paulo. Mas antes disso, a cana já era cultivada em menor escala — para alimentar o gado na seca, para fazer rapadura, açúcar mascavo e aquele melaço que adoçava a vida.

Tio Antônio, herdeiro da sede antiga da Fazenda Lagoa Seca, chegou a produzir cachaça de alambique em pequena escala com a colaboração de Florentino José de Faria, conhecido por nós como Tio Lora, irmão de Tia Vanda e filhos de nosso Tio Avô Messias, que por sua vez é irmão de nosso avô Firmiano. Era tão pouca gente na região da Serrinha naqueles tempos que além de nosso pais, primos de primeiro grau, outros três tios são também o eram.

 

Lavoura orgânica de cana-de-açúcar, variedades CTC4 e RB966928, Empresa Cachaça Canela-de-Ema, Fazenda lagoa Seca, Itumbiara Goiás

Nosso pai, conhecido como  João do Firmiano, e nossa mãe, Raimunda, depois de realizarem o sonho de formar os dez filhos, arrendaram parte da fazenda e abriram um comércio em Itumbiara. Lá, vendiam a cachaça do tio Antônio e de outros pequenos produtores. Era um negócio simples, mas cheio de tradição.

Um dia, nosso pai ganhou uma garrafa da renomada cachaça Havana, comprada por mim no famoso mercado central de BH por mim nos anos 80 . Ele, que entendia do assunto, ficou maravilhado. E ali nasceu o sonho do alambique próprio — um sonho que virou projeto dos herdeiros.

Em agosto de 2018, nasceu a Agronegócios Fazenda Lagoa Seca do Brasil. A empresa cuida do Empório Cachaça Canela-de-ema, já funcionando online, e do alambique que começou a produzir em 2020. Este ano, com tudo legalizado — registro no MAPA e certificado de produção orgânica — estamos engarrafando e rotulando outras safras. Mas entre nós, dos nossos pais, só restou o sonho. Eles já partiram, mas deixaram a chama acesa que nos guia até hoje.

Vista geral do alambique Cachaça Canela-de-ema de 2019/2020

Alambique no início da operação safra 2020

A seguir um passeio virtual por Itumbiara, Goiás, município onde está localizado o alambique cachaça canela-de-ema

A Cachaça Canela-de-ema tem como inspiração o primeiro alambique da região da Serrinha, pertencente ao tio Antônio e à tia Vanda. Era lá, na sede mais antiga da Fazenda Lagoa Seca, onde nosso avô Firmiano, nosso pai João e seus irmãos foram criados. E até hoje, essa terra continua sob os cuidados da tia Vanda, que aparece no vídeo abaixo com Felipe G. J. de Faria, tataraneto de Joaquim Felipe e atual gerente de vendas do nosso alambique.

Alguns parentes mais vividos confirmam que, na bagagem trazida de Minas nos dois carros de bois, vieram sementes de café e garrafas de cachaça de alambique. O café garantiu sustento. A cachaça, mesmo que ninguém saiba ao certo a origem, sempre esteve presente — seja numa dose para relaxar, seja nas garrafadas medicinais que tratavam de tudo, das dores nas costas às aflições da alma.

A descoberta dos restos do antigo alambique, feito com folha de flandres e instalado próximo à sede da Fazenda Lagoa Seca, foi mais do que um achado histórico — foi um reencontro com nossas raízes. Segundo nossa tia Vanda, entrevistada por Felipe G. J. de Faria no vídeo abaixo, esse pequeno alambique foi testemunha silenciosa dos primeiros passos da família na produção artesanal, muito antes da ideia de uma empresa ou de um rótulo.

 

Restos do primeiro alambique artesanal da família encontrado na Fazenda Lagoa Seca

Hoje, com o alambique da Cachaça Canela-de-ema em pleno funcionamento, com certificação orgânica Brasil e em breve também a certificação Orgânica da União Europeia, e outras safras sendo engarrafada, sentimos que a roda da história girou e voltou ao ponto de origem — mas com mais força, mais consciência e mais propósito.

A Fazenda Lagoa Seca não é apenas terra. É memória viva. É o lugar onde bois decidiram caminhos, onde canoas cruzaram o Paranaíba, onde sementes de café garantiram sustento, onde a carpintaria virou arte, e onde a cachaça virou símbolo de resistência, tradição e afeto.

A saga da nossa família é feita de coragem, de trabalho, de fé e de uma vontade imensa de deixar algo duradouro. E agora, com cada garrafa da Canela-de-ema que sai do alambique, deixamos também um pedaço dessa história para o mundo — uma história que começou em Piumhi, atravessou rios, enfrentou bifurcações e chegou até aqui, firme como o cerrado, doce como o melaço, forte como a branquinha que sempre esteve presente nas nossas mesas.

Seguimos em frente, honrando o passado e cultivando o futuro. Porque a verdadeira herança não está só na terra, mas no que fazemos com ela.

Autores: Adão V. de Faria, Firmiano B. de Faria, Ozória B. de Faria, Rubens Vieira de Faria, Meire de Fátima Faria e Felipe G. J. de Faria e Eduardo Faria J, Hilda Vieira de Faria e Candinha.

Produção: Empório Cachaça Canela-de-ema

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