O tropicalismo, para quem já não se lembra, foi um movimento artístico cultural dos anos 60 que tinha como proposta dar continuidade, de maneira radical, ao Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade da década de 20, e fundar, de uma vez por todas, um Brasil de verdade, que se amasse, que se consumisse por inteiro e com orgulho de tudo que nossa cultura fosse capaz de gerar, uma tomada de consciência e um “não” à catequização europeia até então dominante por aqui.
É difícil imaginar que movimentos tão nobres como estes, pensados por pessoas tão lúcidas e corajosas, não tenham incluído, de alguma maneira, nessa luta por um Brasil mais brasileiro, a nossa brasileiríssima cachaça, à época tão marginal quanto o choro, o samba, o Baião e até a feijoada.

Mario de Andrade, meio que sozinho na defesa da nossa nobre Cachaça, levou ao evento da semana de 22 uma obra chamada “Eufemismos da Cachaça” e corajosamente os organizadores proibiram servir outra bebida que não fosse cachaça, dizem que essa turma, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Vila Lobos, Di Cavalcanti, Mário de Andrade e outros, ficava de porre todo dia. As artes até que tomaram outros rumos, mas nossa Cachaça continuou na clandestinidade.

Segundo biografia de Tarsila do Amaral, antropofágica e companheira de Oswald, era apreciadora da cachaça e caipirinha, mas a esqueceu na sua obra expressa. “Quando Tarsila do Amaral morou em Paris, em meados de 1920, ela recebia cachaças enviadas do Brasil, com as quais preparava as caipirinhas. Tarsila apresentou a bebida mais brasileira de todas e o cocktail a Pablo Picasso”, conta Mestre Derivan, uma das maiores referências em Cachaça do Brasil, mas isso fica para outro post.
Que a Tequila, símbolo mexicano, era a bebida preferida da artista plástica Frida Kahlo é fato constatado e talvez explique hoje a fama e a importância desse destilado na economia e na identidade desse povo tão alegre e próspero. Tarsila do Amaral esqueceu, uma licença poética, mas colocamos uma garrafa e um copo de cachaça na sua obra símbolo maior do movimento antropofágico.

Garrafa e copo de Cachaça negros,  Intervenção na obra Abaporu , símbolo  Antropofágico.

Abaporu de Tarsila seria mais eterno se mostrasse como aqui uma garrafa e um copo de cachaça para mostrar que assim como nós a cachaça tem origem na senzala

Se os nossos tropicalistas Torquato, Glauber, Caetano, Gil e outros tomam ou tomaram cachaça, como Frida tomava Tequila, eu não consegui descobrir, mesmo depois de uma árdua pesquisa, mas se alguém souber me conta. A Cachaça não é música e nem artes plásticas, mas é um traço forte de nossa cultura, e por isso, merecia um espaço distinto no movimento.

Até posso imaginar estes mitos estéticos tomando um bom vinho, ou até um whisky escocês, mas nosso nobre destilado, posso imaginar bebendo de fato, só mesmo nosso tropicalista marginal, Tom Zé, e por isso mesmo, com mais uma licença, o nomeio o único legítimo de todo o grupo, uma vez que ele foi o único a declarar conhecedor e apreciador de nossa nobre cachaça.

Tom Zé: ‘É uma verdadeira utopia ter nascido no tempo de Caetano e Gil. Mas no livro de Caetano eu sou um organizador de festa, tomador de cachaça e não sei falar português’ (JB online João B. Caldeira).

Tom Zé divulgando um de seus trabalhos

Tom Zé o mais brasileiro dos tropicalistas que apreciava cachaça

Gostaria aqui de conclamar nossos expoentes da cachaça, da estética e ético, da culinária, nossos cachaciers e apreciadores, a elegerem Tom Zé nosso tropicalista de fato e de direito. Será reparado assim nossos movimentos de brasilidade, que por força do exílio de alguns, ou, por permanência de uma ressaca colonialista, a cachaça, mesmo tão entranhada em nossas vidas e nossa história, não teve a mesma sorte da Tequila de Frida, mesmo sendo a cara do tão sonhado Brasil dos tropicalistas e modernistas antropofágicos.

O mérito de ser nossa cachaça, hoje, tão popular e ocupar o segundo lugar entre as bebidas mais consumidas no pais, perdendo só para cerveja, deve-se única e exclusivamente a seu traço cultural marcante e amplo socialmente, e claro, à sua diversidade de sabores, além de poder ser apreciada por uma infinidade de maneiras.

Um fator histórico importante pode ter ajudado a tirar a amada e odiada cachaça da marginalidade. Pelos anos 1940-1950 com o fim dos engenhos de açúcar mascavo, que foram obrigados a fechar por conta das emergentes usinas, que produziam o açúcar refinado branco em larga escala, várias propriedades ficaram de “Fogo Morto”, como diz no título do livro de José Lins do Rego. Muitos fecharam e os sobreviventes tiveram que se reinventar e focar sua produção na cachaça.

Mas, a grande virada para, de fato, colocar a cachaça dentre os nobres destilados só começou mesmo por volta de 1995, 1996, onde, por pressão de produtores e por vontade política, o Governo de Fernando Henrique Cardoso começou a produzir as primeiras portarias e instruções normativas sobre a cachaça. Só então é que foram definidas as regulamentações técnicas de fabricação, os procedimentos de registro de produtores, a classificação e rotulagem e os processos de fiscalização.

Adão de Faria e Felipe de Faria

Referências:

Verdade Tropical, Caetano Veloso,

Tropicalista Lenta Luta, Tom Zé


Empório Cachaça Canela-de-ema

Loja virtual, e-commerce, da empresa Agronegócios Fazenda Lagoa Seca do Brasil LTDA que comercializa, no atacado e varejo, cachaça artesanal, orgânica e produtos afins. Todos os produtos são devidamente escolhidos com base nos melhores resultados dos testes de qualidade conforme critérios do MAPA.

2 comentários

Hilda · 07/07/2019 às 13:13

Li e amei as informações culturais sobre a nossa Cachaça

Olá!

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