Estive no primeiro dia da Expocachaça 2026. Perambulei pelos estandes — inclusive os de doces, queijos e similares e claro, cachaça de alambique —, conversei com muitos colegas fabricantes, expositores e visitantes que, como eu, estavam ali observando tendências e fortalecendo sua rede de contatos.
Na volta para casa, já bastante tarde, meu cérebro insistia em me cobrar uma compreensão mais clara do que vivi, ouvi e presenciei naquela tradicionalíssima feira da cachaça de alambique, em Minas e no Brasil, já em sua 35ª edição.
Como defensor assíduo da cachaça de alambique de cobre, da valorização do terroir, da levedura selvagem ou autóctone e da tradição culinária da cachaça, fui do céu ao inferno nas horas que passei ali, em boa companhia. Foi então que decidi compartilhar com vocês minhas impressões.
Observei uma tendência quase unânime: a ideia de que, daqui para frente, a nossa tradicional cachaça de alambique precisa ser “neutra” para atender não apenas aos novos bartenders e à geração Z, mas também à indústria de RTD (ready-to-drink), em franco crescimento na Grande BH.
Entendi que alguém muito conceituado e letrado no universo das bebidas vem difundindo, de forma irresponsável, um conceito contrário à tradição da cachaça de alambique, naturalmente rica em congêneres e até um pouco mais ácida do que as cachaças de coluna, que recorrem largamente ao uso de antibióticos.
Percebi que essa “cachaça neutra”, minha nova descoberta, nada mais é do que uma cachaça de alambique redestilada e hiperfiltrada, tentando ocupar o lugar das cachaças de coluna, que habilmente se posicionaram, depois de muita mídia, como representantes da verdadeira tradição. Quem vencerá?
Já meio desolado, sentindo-me traído e dentro do próprio inferno de Dante, encontrei inesperadamente dois grandes defensores da cachaça de alambique — e, mais ainda, da produção completamente artesanal, com fogo direto e tudo: Nando Chaves, da Século XVIII, e Maíra, da Campanari.

Inferno de Dante
Com eles, percebi que nem tudo está perdido. Ainda há quem acredite que é possível premiunizar a cachaça de alambique em drinks inteligentes e, ao mesmo tempo, fazê-la amada por apreciadores de paladar aguçado. Encontrei o céu.
Depois de ler o “Manifesto do Produtor Artesanal de Cachaça: Destilando no Fogo Direto”, de Francisco Chaves, da Século XVIII, descobri que gosto do céu, mas, de fato, estou no purgatório. Optei pela caldeira, embora reconheça que o fogo direto aproxima a produção da cachaça de uma culinária de tradição, inteiramente artesanal, como prega o manifesto publicado neste nosso blog.

Adão Canela-de-ema e Nando Século XVIII na expocachaça de 2026
Foi então que me lembrei de Dante Alighieri e de sua Divina Comédia, Canto III: “Deixai toda esperança, vós que entrais no Inferno”.
0 comentário