No universo da cachaça de alambique, vivemos um dilema que ecoa as provocantes reflexões do professor Scott Galloway. Na ânsia de conquistar o mercado europeu e os paladares internacionais, muitos produtores brasileiros caem na armadilha da bidestilação. É o que poderíamos chamar de uma “antropofagia às avessas”: em vez de devorarmos a cultura estrangeira para fortalecer a nossa, estamos nos diluindo para caber no molde do colonizador.
Nesse sentido, Galloway critica o atual ‘culto ao não consumo de álcool’ e a busca por uma vida asséptica e sem riscos, visto que essa tendência estaria criando uma geração solitária e sem repertório. Para ele, contudo, a maturidade exige convivência, exposição e a coragem de assumir as próprias imperfeições. Do mesmo modo, no alambique a lógica se repete: a busca pela pureza química absoluta está, consequentemente, assassinando a alma sensorial do destilado da cachaça de alambique.
A Ilusão da “Limpeza” Europeia
O argumento para a bidestilação da cachaça de alambique parece lógico no papel, mas é traiçoeiro na prática:
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Mimetismo: Tenta-se emular o refinamento (em tese) do Cognac e do Whisky.
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Conformidade: Busca-se garantir níveis baixíssimos de contaminantes (como o carbamato de etila) para atender às rígidas normas da União Europeia.
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Versatilidade: Tenta-se entregar um produto “fácil” para a coquetelaria global, que não “brigue” com outros ingredientes.
O Processo Antropofágico: Nossa Verdadeira Força
Com efeito, a cachaça de alambique tradicional é, por natureza, um produto antropofágico, pois ela devora a cana, a técnica europeia de destilação, a herança da cozinha africana e o saber dos povos originários. Além disso, ela processa o solo, o clima e a levedura selvagem para, então, entregar algo único.
Diferentemente da Vodka (que busca a neutralidade absoluta) ou do Whisky (que depende excessivamente da madeira), a cachaça de alambique brilha pela destilação simples e bem feita. No entanto, ao optarmos pela bidestilação sistemática para ‘limpar’ o produto, acabamos removendo os ésteres e aldeídos — ou seja, os compostos fundamentais que guardam o perfume da cana fresca e a complexidade que nenhum outro destilado no mundo possui

Cachaça – Manifesto Antropofágico
O Risco da Invisibilidade da Cachaça de Alambique
Se a cachaça de alambique se tornar um líquido neutro, polido e “comportado”, ela entra em uma guerra que não pode vencer:
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Contra a Cachaça de Coluna: A indústria produz destilados neutros com muito mais eficiência e menor custo.
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Contra o Rum e a Vodka: Eles já dominam o mercado de “bases alcoólicas invisíveis”.
Sem personalidade, nossa cachaça de alambique deixa de ser um patrimônio cultural para se tornar apenas mais uma commodity alcoólica.

A Alma da Cachaça Sendo Extraída
Conclusão: Coragem Sensorial da Cachaça de Alambique
Portanto, para que a cachaça de alambique conquiste o mundo, ela não deve pedir licença ou, muito menos, tentar se disfarçar de ‘Whisky branco’. Pelo contrário, ela precisa exibir seu nascimento: bruto e sofisticado ao mesmo tempo.

O Alambique Vivo X O Laboratório Frio
Nesse contexto, seguir o caminho da bidestilação apenas para agradar ao paladar europeu médio é uma forma de hipocrisia puritana destilada. Afinal, a verdadeira justiça para o nosso destilado nacional vem da liberdade de sermos o que somos: complexos, intensos e autênticos.
Em suma, precisamos de menos neutralidade e mais identidade, visto que a cachaça de alambique ou é visceral, ou desaparecerá inevitavelmente nas prateleiras do esquecimento.
Um Gole, Uma Flor, Um Sorriso!
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