A Fazenda Lagoa Seca

Ainda muito novo, eu junto com toda família Faria, deixamos a Fazenda Lagoa Seca, na região da serrinha, para residir na cidade de Itumbiara em Goiás, distante da fazenda aproximadamente 2 léguas portuguesas ou 12 km. Esse nosso êxodo, como de muito outros  moradores rurais  de todo brasil, aconteceu  fortemente na década de 50, em nosso caso, mais precisamente no ano de 1956, motivado, em especial, pela busca de nossos pais por uma educação melhor para a família. Nosso avô paterno, irmão de mina avó materna, chegarou de minas no último ano do século dezoito com seus pais para residirem na parte mais baixa da fazenda Lagoa Seca , às margens do córrego grande.

Não faltava quem achava que aquele heróico ato de nossos pais de mudar para cidade acabaria em miséria e perdição para todos, mas a verdade é que muitos foram e as cidades que ai hoje estão pujantes devem muito a esta gente simples, mas treinada e destemida na lida diária sem rancor e sem nunca perder a esperança de dias melhores, governavam suas terras como verdadeiras fortalezas de empreendimentos, e foi assim que grande parte de nossas cidades ganharam corpo, Itumbiara não foi diferente.

Tudo era muito diferente na cidade de Itumbiara, muito mais gente, o rio Parnaíba que banha a cidade e os ribeirões que a cortam eram na nossas vistas de criança grandes e ameaçadores, até porque lá na roça, nosso paraíso imperial e majestoso, era um local mais alto e rico em nascentes de água, ao todo são seis, formadoras do estreito córrego do Capim, ainda dentro da fazenda Lagoa Seca, que, por usa vez, alimenta o córrego Grande que deságua no nosso majestoso Rio Paranaíba a mais de 20 km da fazenda Lagoa Seca, mas ainda no município de Itumbiara.

Em Itumbiara

Fácil imaginar que nosso maior divertimento, depois da bola com toda molecada que aparecia de várias partes em nosso campinho de futebol, era nadar nestes ribeirões, ou em alguns momentos de aventuras extremas, nadar ou pescar no próprio Parnaíba, que já tinha fama de ter tragado várias vidas, o que deixava todos os pais, em especial os nossos, também pouco acostumados com tanta água, apreensivos e neuróticos com a possibilidade de aventurarmos por estas  águas profundas em companhia de corajosos. Claro que fomos  a todos estes lugares perigosos, mas sim, sem o conhecimento dos pais e dos irmãos mais velhos que já tinham experimentado o perigo.

Naqueles tempos das décadas de 50 e 60 o rio Parnaíba, em tempos de secas mais extensas, perdia bastante água e isso facilitava nossas aventuras e até atravessar o rio para por os pés em Minas Gerais, conhecer um outro estado, mas segundo nossos pais tinha um tal de rebojo nas partes mais profundas do rio que tragavam os mais incautos para uma morte certa, o que nos deixava muito apreensivos até que, por fim, isso virou lenda. A pescaria era fácil, tanto nos ribeirões ou córregos Trindade, da Água Suja, das Pombas e Buriti, muito Brague e Lambari, mas em especial no Parnaíba a pesca era até lucrativa, pois eram pescados a Piracanjuba, o Dourado e até o Jaú, peixes raros ou até inexistentes nos dias de hoje, outrora trasbordavam.

Com a instalação no município de Itumbiara, depois dos anos 50, de duas hidroelétricas, de Cachoeira Dourada a 20 Km  e a de Itumbiara a 5 km, o Rio Paranaíba, no trecho que banha Itumbiara, perdeu sua velocidade e com isso desapareceram estes peixes tão cobiçados pelos pescadores. Tudo agora é como se fosse para sempre época de chuvas, o Paranaíba mantém, por força de barragens de contenção da água, sempre cheio e sereno, mas meio sem emoção e também sem peixes, em especial os menos adaptáveis, mas por outro lado ganhou banhistas, lanchas de grande porte, jat skis e tudo o mais. Por vezes é possível vislumbrar algum pescador, provavelmente mais interessado em se refugiar da sua rotina do que propriamente dito pescar, como se fazia outrora. Cachoeira Dourada está emancipada desde 1982.   

As águas da bacia do Paranaíba e Grande compõem a grande bacia do rio Paraná que, por sua vez, forma com os rios mais ao sul a grande bacia da Prata. Estas águas correm para o sul, enquanto a maioria das águas do nosso território correm ao contrário. Esse caminho  para o sul dessas águas, enfrentando um relevo peculiar, desde a Mata da Corda em Minas Gerais até o mar da Prata na Argentina e Uruguai, trouxe vantagens sem precedentes para nossa economia, são 57 grandes reservatórios instalados nesta bacia, sendo a usina de maior capacidade instalada de Itaipu na divisa com o Paraguai.

Você já deve estar se perguntando, mas onde entra nessa narrativa a Fazenda Lagoa Seca com seu Alambique Cachaça Canela-de-ema? Tem nessa fazenda, com quase 700 m de altitude, seis nascentes de água em sua reserva, que como as demais da região alimentam o Rio Paranaíba no trecho entre estas duas usinas hidroelétrica. Com a explosão da produção do milho e especialmente da soja no cerrado, pouca ou nenhuma mata ciliar agora protegem estas nascentes.

É preocupante observar que o cerrado alto que dominava a paisagem do vale do Parnaíba e enchia nossos olhos, quando íamos, ainda criança, da fazenda para a cidade, agora é visto ao longe em pequenos e raros trechos, ou onde tem pedras e não serve para plantio até o momento, ou cercando alguma nascente de proprietários mais preocupados com a natureza, como é o nosso caso.

Depois que nossos pais faleceram, ainda no inicio deste século, vimos desmoronar o pouco que ainda restava do nosso reino encantado onde fomos criados livres e cheios de fartura de toda ordem. Nossos pais se vangloriavam de terem que comprar apenas o sal, por vezes algumas guloseimas,  porque os demais alimentos eram produzidos na própria fazenda, até mesmo o café, o açúcar e até o fumo a farinha e o polvilho. Itumbiara que era o centro produtor agrícola do estado chegou a receber a denominação de capital do arroz nos anos 60, mas a soja inundou goiás e região e achou cerrados mais propícios, como os da região de Rio Verde, que tomou a liderança do estado na produção destes grãos.

O Alambique Cachaça Canela-de-ema

Diante da iminência de enterrar de vez todos as referências de nossas origens, decidimos não mais vender a propriedade e com isso passamos a estudar uma maneira de tornar nosso espólio produtivo e sustentável. No que resta do cerrado alto já não encontramos mais o murici, a gabiroba, o araticum e tantas outras frutas que saboreávamos na infância. As nascentes borbulhantes de nossa infância estavam todas comprometidas seriamente, ou por falta de mata ciliar ou invasão de gado e também pelas fortes secas dos últimos anos.

Em agosto de 2018 criamos a Agronegócios Fazenda Lagoa Seca do Brasil LTDA cuja a principal missão é a produção da Cachaça Canela-de-ema e logo em seguida fundamos a e-commerce Empório Cachaça Canela-de-Ema com  responsabilidade de comercializar cachaça e derivados, com sede física no próprio Alambique. Retiramos o gado, cercamos as nascentes, refizemos o contrato de venda de cana com a BP Bunge no qual está acordado o não uso de agrotóxico via aeronaves para evitar derivas para nossa lavoura orgânica. Passado quase quatro anos vimos as nascentes reviverem e o alambique já está na sua terceira safra neste ano de 2022, com uma capacidade implantada de 100.000 litros/ano.

Preservar o Cerrado e ao mesmo tempo manter a fazenda sustentável já sabemos que é possível, mas também temos certeza que se nada for feito de imediato para uma preservação ampla do cerrado e nascentes, com ação de todos, nosso futuro como espécie, a biodiversidade deste bioma e mesmo as hidroelétricas estarão em breve seriamente comprometidas e com chances de irreversibilidade. Temos consciência que não basta fazer nossa parte individualmente, temos que atuar com ações concretas junto aos municípios, a federação e organismos de proteção.

Autor: Adão de Faria

Revisão e edição Felipe de Faria

 


Empório Cachaça Canela-de-ema

Loja virtual, e-commerce, da empresa Agronegócios Fazenda Lagoa Seca do Brasil LTDA que comercializa, no atacado e varejo, cachaça artesanal, orgânica e produtos afins. Todos os produtos são devidamente escolhidos com base nos melhores resultados dos testes de qualidade conforme critérios do MAPA.

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