Cachaça e Antropofagia

Depois de me deparar com um vídeo de uma entrevista do Bruno Videira do “Viva Cachaça” com a turma do @caninhacast sobre a componente política do ato de tomar cachaça, pensei em refazer um dos posts desse blog.

O poste a que me refiro tem o título “Cachaça, Cultura e Arte” que discorre sobre a cachaça e sua importância no movimento antropofágico proposto pela Semana de Arte Moderna de 1922.

A cachaça é, sem nenhuma dúvida, uma das bebidas mais democráticas, sendo apreciada por todos os segmentos da sociedade. Tem apreciadores para qualquer tipo, desde as mais populares, produzidas industrialmente em grandes volumes, até as eruditas, produzidas em alambiques, quase sempre em pequena escala.

O grau de sofisticação da cachaça nos dias de hoje a coloca em condições de enfrentar a concorrência de qualquer destilado, mesmo os mais tradicionais e de alta qualidade.

O ato de degustar uma cachaça vai muito além de um simples prazer. É um posicionamento político. É reconhecer seu papel na emancipação do nosso país. É reconhecer o papel das mulheres no mercado da cachaça. É ter consciência da dívida do país com os negros.

A história do negro no Brasil se confunde com o nascimento da cachaça no ciclo da cana-de-açúcar, ainda no século XVI, quando nasce nas proximidades das senzalas o único destilado . genuinamente brasileiro.

O Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade de 28

Tomar uma cachacinha ou um nobre gole de cachaça é, em última instância, reconhecer nosso único e legítimo destilado, é praticar a antropofagia como propunha os modernistas na semana de arte moderna de 1922 em São Paulo.

Tomar e fazer cachaça é não mais imitar, especialmente os estrangeiros, mas devorar culturas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto emancipado e de exportação.

A cachaça, por ser um produto que nasceu no início do período colonial, muito provavelmente como um subproduto dos engenhos de cana, “casas de cozer méis“, ficou por muito tempo restrita como mais uma bebida caseira.

A Revolta da Cachaça

Originariamente clandestina como produto de consumo comercial, pode explicar o fato de grande parte da produção nacional de cachaça ainda permanecer na ilegalidade, mesmo com toda a luta do Estado para reduzir esta situação.

Quando o crescimento do consumo da cachaça começou a ameaçar o mercado de produtos importados pela coroa, como o vinho e a bagaceira, a cachaça passou a ter altas taxas de impostos. Isto levou a Revolta da Cachaça no fim do século XVII. A partir daí  ela ganha um papel de resistência nacionalista.

Esta noção de brasilidade inflada na defesa do produto brasileiro culmina na Inconfidência Mineira do fim do século XVIII e na própria independência do país que ocorreria mais tarde no século XIX.

A importância da cachaça como bebida nacional é inegável, até porque seu consumo é expressivo, superando um bilhão de litros por ano, só perdendo em volume de consumo para a cerveja, que não é um destilado.

Por outro lado, o efeito colônia ainda é muito presente em muitos estratos de nossa sociedade. Para um amigo íntimo, até vai uma cachaça, mas brindes em ciclos oficiais, raramente a cachaça aparece, o domínio é dos importados, como Scotch e vinho, herança colonial do comportamento da corte.

Colono Estrutural

Mais do que nunca, tomar um gole de cachaça é também dizer não ao nosso comportamento estrutural de colonos eternos. Valorizar e copiar o que vem de fora e negar o que de fato faz parte de nossa história e tradição é não ser antropofágico.

Não se pode negar a crescente valorização da cachaça, mesmo que alguns estabelecimentos e ainda alguns segmentos sociais continuem negando sua importância na nossa formação social.

Seu consumo, muitas vezes velado, garante nossa paixão pela cachaça, assim como, por nossa baixa exportação, menor que 1%, mostra que a turma da cachaça tem muito que aprender com os importados.

Inegável é a importância de degustar uma cachaça, mas toda essa importância histórica, política  e cultural da cachaça ainda enfrenta muitos preconceitos.

O adjetivo “cachaceiro”, talvez o mais danosos de todos, é usado indiscriminadamente contra qualquer um que bebeu um pouco mais, não importando o tipo de bebida alcoólica. Pode até ser encarado como propaganda do nome pelos mais otimistas, entretanto, merece uma reflexão.

Cachaceiro ou não Cachaceiro eis a Questão

“Cachaceiro” é um dos pejorativos mais usados pelos pais na educação de seus filhos, especialmente as filhas, quando começam no início da maioridade a ter contato com as bebidas alcoólicas.

Essa carga emocional é transferida de geração para geração e pode explicar o porquê de os jovens preterirem a cachaça, tomando outros destilados como gin, whisky, vodca ou tequila, sem negar o efeito mercadológico e o velho ditado “santo de casa não faz milagres”.

Até que um jovem tome conhecimento de que, de fato, o cachaceiro é quem aprecia cachaças e não um arruaceiro, beberrão ou arrogante, como afirmava seu pai dando o melhor de sua criação e educação cuidadosa, já se foram alguns anos.

Por sorte do mercado, logo que se tornam independentes, começam estes jovens, mesmo que com alguma culpa, a tomar sua cachacinha. Até brindam com os amigos nas horas mais elegantes, como já faziam com os outros destilados menos estigmatizados pelos pais e pela história.

Para nós que apreciamos uma “branquinha” e sua importância na tradição cultural, ou mudamos seu nome, o que creio ser um pouco tarde, ou encontramos uma maneira de conquistar aqueles que ainda resistem aos seus encantos e importância politica, pois Cachaça saborosa é o que não falta.

Autor: Adão de Faria

Edição: Felipe de Faria


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