Cachaça e a Libação
Libação é o ato de derramar oferendas líquidas, como água, vinho, sangue e outros, com finalidade religiosa ou ritual, em homenagem e honra a um deus ou a uma divindade.
Na Roma e na Grécia antiga, era comum a prática religiosa de libação aos mortos, que consistia em derramar vinho, leite e mel sobre o lugar onde as pessoas queridas estavam sepultadas. O objetivo desse ritual era alimentar os mortos.
Segundo acreditavam, os falecidos, ainda que debaixo da terra, podiam sorver o alimento de que “precisavam”.
Esse era um costume antigo tão comum que podemos encontrar nas Escrituras homens como Jacó praticando esse ritual. E mais, no caso de Jacó, esse ritual foi oferecido ao Senhor Deus.
Gênesis 35:14 – “E Jacó pôs uma coluna no lugar onde falara com ele, uma coluna de pedra; e derramou sobre ela uma libação, e deitou sobre ela azeite.”
Esse ritual de origem greco-romana da libação, incorporado às religiões afro-brasileiras, que se resume em despejar o primeiro gole, geralmente de cachaça ou aguardente, e em seguida dizer “uma cachaça pro santo”, na verdade chegou ao Brasil, segundo jornalista Edson Borges, autor de uma vasta pesquisa sobre a relação entre a cachaça e as religiões, com os colonizadores portugueses e jesuítas
São Benedito e a Cachaça
Para combater o frio nos canaviais durante o inverno e até mesmo como estimulante ou remédio aos negros improdutivos ou doentes, os portugueses impunham o consumo de cachaça para este trabalhadores africanos. Junto com ela, veneravam o santo siciliano São Benedito, filho de um escravo, como padroeiro da aguardente.
Essa relação dos negros com esse santo católico fez nascer uma ligação bem mais ampla dos negros com São Benedito, resultando no surgimento de irmandades na Bahia. Foi assim que a cachaça passou a ser usada nas oferendas das religiões de matrizes africanas, com a mesma finalidade da libação: um pedido de proteção aos orixás, especialmente ao orixá Ossain.
O mistério que ronda a existência do Orixá Ossain é o que o relaciona sincreticamente com a figura católica de São Benedito, protetor dos escravos e afrodescendentes. Assim como Ossain, é uma entidade que carrega uma história de vida cheia de dúvidas e poucas certezas sobre sua trajetória.
Conta-se que Benedito nasceu em uma família originária da Etiópia que foi escravizada na Sicília, Itália, por volta de 1526. Anos mais tarde, seus pais foram libertos por seus senhores e a família continuou a vida livre, porém pobre, no país. Acredita-se que ele trabalhou como pastor de ovelhas e lavrador.
Em algum momento de sua trajetória, não se sabe quando, Benedito entrou em contato com um dos seguidores de São Francisco de Assis e, identificando-se com as motivações do grupo, se juntou a um convento franciscano de Palermo, capital da Sicília.
Lá, foi um franciscano exemplar e chamou a atenção por sua humildade, obediência e espírito de oração. Benedito andava descalço, dormia no chão e fazia uma série de sacrifícios.
Sabe-se que muitas pessoas que buscavam seus conselhos e orações conseguiram atingir as curas necessárias. Essa capacidade de cura é mais um dos pontos que dialoga com as energias de Ossain.
Após 17 anos nessa função, ele se mudou para o Convento dos Capuchinhos e trabalhou como cozinheiro, ficando nesse cargo até ser eleito por seus irmãos como superior do mosteiro por conta de sua prudência, santidade e sabedoria.
A tradição católica considera São Benedito iluminado pelo Espírito Santo por ter profetizado e obtido resultados positivos diversas vezes. Para muitos, Deus conferiu a ele o dom dos milagres. Apesar de todas as informações disponíveis a respeito de São Benedito, a maioria das histórias é confusa e com mais de uma versão.
Cachaça e Rituais
As homenagens a São Benedito são feitas no mesmo dia dedicado a Ossain, 5 de outubro. No mesmo dia, a Umbanda realiza um ritual chamado “Sasanha” ou “Sassayin”, no qual se retira a energia vital das plantas – o sumo, considerado o “sangue vegetal”. É com esse “sangue” que se faz a purificação de objetos sagrados e do corpo dos iniciados, trazendo renovação e equilíbrio para as Casas de Umbanda. Nesse momento, o Orixá é entoado com cantigas dedicadas também às folhas e florestas.
Ainda falando dos cultos de raízes africanas, existe a relação entre a cachaça e a figura de um outro orixá denominado Onilé. A expressão “oni” significa “senhor” no idioma iorubá, praticado na África do Sul. Já a expressão “ilé” significa “terra”. Dessa forma, Onilé é popularmente conhecido como “o senhor da terra”. Como forma de pedir libertação e proteção em troca de oferendas, faz-se a libação, derrama-se uma dose de cachaça na terra para agradar o famoso “Santo”, que, na verdade, é o Orixá.
As homenagens a São Benedito são feitas no mesmo dia dedicado a Ossain, 5 de outubro. No mesmo dia, a Umbanda realiza um ritual chamado “Sasanha” ou “Sassayin”, no qual se retira a energia vital das plantas – o sumo, considerado o “sangue vegetal”. É com esse “sangue” que se faz a purificação de objetos sagrados e do corpo dos iniciados, trazendo renovação e equilíbrio para as Casas de Umbanda. Nesse momento, o Orixá é entoado com cantigas dedicadas também às folhas e florestas.
Ainda falando dos cultos de raízes africanas, existe a relação entre a cachaça e a figura de um outro orixá denominado Onilé. A expressão “oni” significa “senhor” no idioma iorubá, praticado na África do Sul. Já a expressão “ilé” significa “terra”. Dessa forma, Onilé é popularmente conhecido como “o senhor da terra”. Como forma de pedir libertação e proteção em troca de oferendas, faz-se a libação, derrama-se uma dose de cachaça na terra para agradar o famoso “Santo”, que, na verdade, é o Orixá.
A relação entre cachaça e religiosidade gerou também diversas outras práticas e rituais relacionados à bebida, assim como apelidos “santificados”, como a-do-diabo, urina-de-santo, água-benta, entre muitos outros. O Mapa da Cachaça fez um levantamento muito divertido sobre os sinônimos para cachaça no Brasil e encontrou centenas de maneiras de se referir à “marvada”.
Tem gente que se benze antes de tomar a primeira dose, porque a cachaça também é chamada de água-benta. Da mesma forma, há os que fazem caretas exageradas, para espantar os maus espíritos.

Cachaça sempre presente nas simpatias, oferendas e libações
A Cachaça possui energia e poderes mágicos, carrega uma energia astral única que pode ser notada por todos nas diversas simpatias.
Na Bahia, no interior de Goiás e de Minas, é comum que se sopre ou se abane o copo da cachaça. Dizem que é para fazer sair o espírito do álcool. Isso é bem interessante, porque os alquimistas, na Idade Média, destilavam o vinho e, ao perceberem que o álcool gerado da destilação era inflamável, diziam que este era o espírito do vinho. Pelo mesmo motivo, os destilados de uma maneira geral são denominados de bebidas espirituosas “spiritus”.
Existe o ritual de tomar a primeira dose de olhos abertos, para ver o rosto da mulher amada. Mas há também outro ritual muito interessante que é o de tomar a última dose de olhos fechados. Na região Norte, é uma tradição fazer isso porque, segundo dizem, se você toma o último trago de olhos abertos, pode ver o olho da morte no fundo do copo.
Comemorações da Cachaça
Para marcar a importância do nosso legítimo destilado e sua relevância na história de nosso povo, nossa cultura e religiosidade, no dia 21 de maio é comemorado o dia da cachaça mineira. Essa data é tão emblemática porque foi o dia em que o então governador de Minas, Itamar Franco, assinou a Lei no. 13949/2001, que regulamenta a produção de cachaça em Minas Gerais e também marca o início da safra neste estado. Ela é comemorada desde 2001.
Há também o dia 13 de setembro, escolhido pelo IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) em 2009 como o Dia Nacional da Cachaça. Foi neste dia, no ano de 1661, que a bebida se tornou regulamentada para produção e consumo em território nacional. Não sem antes ser preciso lutar: um ano antes, produtores chegaram a organizar um protesto contra a proibição pela corte portuguesa. O evento, que ocorreu no Rio de Janeiro, ficou conhecido como a A Revolta da Cachaça.
E tem ainda o 13 de Maio, dia de homenagem ao Preto Velho, entidade de humildade e paciência da Umbanda, e também a data da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, que libertou os escravos no Brasil, cuja historia se confunde com a da cachaça. A rainha, cognominada “a Redentora”, foi a filha mais velha do imperador D. Pedro II do Brasil e da imperatriz consorte Teresa Cristina das Duas Sicílias, e, portanto, membro do ramo brasileiro da Casa de Bragança.
Adão de faria, Felpe G. J. de faria e Eduardo F. Junqueira

5 comentários
Hilda Vieira Faria de Oliveira · 21/05/2020 às 20:34
Bom… descobri o Santo padroeiro da cachaça… São Benedito.
Empório Cachaça Canela-de-ema · 21/05/2020 às 22:29
parabéns!
Hilda Vieira Faria de Oliveira · 06/10/2020 às 09:54
Relendo…notei que realmente a cachaça tem grandes significados e relevância… vivaaaaaa a cachaça
Tim…Tim..
Empório Cachaça Canela-de-ema · 24/05/2021 às 19:22
Obrigado pela participação aqui
A Cachaça no Teatro de Antônio Callado - Blog Cachaça Canela-de-ema · 10/11/2022 às 14:26
[…] prática da libação de origem Greco Romana, com uso da cachaça ou aguardente, foi incorporada pelos negros às religiões afro brasileiras, […]